quinta-feira, setembro 22, 2016

Os segredos que a primavera nos conta: Reflexões, Histórias e Simbolos

Spring Nymphs por Emily Balivet



Antes de mais nada é interessante dizer que esse texto foi dividido em duas partes. A primeira parte fala sobre os significados e simbolismos da primavera e porque trazer ela para o nosso dia-a-dia, e o segundo fala como traze-la para o nosso lar e corpo para desfrutar do seu equilibrio e fertilidade.

A temporada das flores
Deixe a estação entrar

Sempre tive uma dúvida muito profunda sobre o que nos separou dos animais e que nos fez parar de subir em árvore para caçar comida e nos proteger, começando a nos reunir em bando. O que nos fez parar de grunhir e começar a falar, a desenvolver escrita e toda uma atmosfera a parte da natureza. O que nos deu o título de Homo sapiens?

Que olho ou mão armaria tua feroz simetria?*

Claro que para isso não existe uma resposta única, mas é sabido que um dos acontecimentos mais marcantes para essa separação humana do mundo dos animais foi a descoberta do fogo e domínio do fogo, que nos uniu em torno de uma fogueira há 500 mil anos atrás em busca de proteção. Essa fogueira também servia para cozinhar os alimentos, e a partir desse primeiro momento de socialização da espécie humana foi criado um dos rituais mais antigos: O comer.
Art Nouveau:  
Se procurarmos no dicionário uma das definições de ritual é: conjunto das regras socialmente estabelecidas que devem ser observadas em qualquer ato solene; cerimonial.

Parafraseando Laurie Cabot em seu livro “O poder da bruxa“, o homem desde épocas memoráveis celebra as mudanças de estação, não que elas precisem da nossa comemoração para existir, mas para simbolizar que ao mesmo tempo que o mundo muda por fora, nós como parte dele mudamos por dentro.

O homem não entende o mundo por fatos, mas sim por símbolos e rituais que são traduzidos pelo nosso cérebro e forma uma complexa comunicação. Porque gostamos de alimentos quentes? Porque quando damos festas sempre usamos comida? Porque chamamos os amigos pra beber? Porque tomamos banho todos os dias? Porque beijos, abraçamos, transamos? Porque tudo isso é ritual e é símbolo de conexão não apenas com o outro, mas com todo o universo ao redor.

Comemorar a primavera não é dar uma balada em com o nome enorme “ bem vindo primavera “ (TAMBÉM PODE SER, e se você quiser pode dar e me convidar porque adoro). Comemorar a primavera é chamar ela para dentro de você, para dentro de sua casa. É chamar para a sua vida o equilíbrio, a fertilidade, o amor e a beleza destes momentos.





Primavera, Equilibrio, Renascimento, Fertilidade
VIDA


Clyte, Frederic Lord Leighton:
Clyte, Frederich Leighton
A primavera é carregada de símbolos de fertilidade e abundância, e para trazer ela para o nosso dia-a-dia precisamos entender o que ela é e como funciona o arquétipo (se não sabe o que é arquétipo clique aqui) de roda do ano.

Diferente dos cristãos que falam um ponto de partida (morte de cristo) até hoje como dois mil e dezesseis anos, as culturas voltadas a natureza entendem o ano como algo cíclico assim como a vida em si: Todos nós nascemos, crescemos, reproduzimos, envelhecemos e morremos para podermos renascer. Isso é aplicado a absolutamente tudo, ao ano, aos séculos, às eras e até mesmo às próprias divindades.

Para fins didáticos vamos começar a explicar pelo "final". Na roda o Deus-sol em ato de proteção doa sua energia vital no outono (30 de abril) o que causa a sua “morte”, tornando os ares mais frios e as plantas menos frutíferas até a chegada do Solstício de inverno (21 de julho), onde a noite é maior que o dia, simbolizando o momento de parto da deusa e o renascimento do deus-sol. A partir desse momento, a noite chegou ao ápice e aos poucos o dia fica maior, a escuridão sede a luz, a esperança crescer no coração do homem, a vida ganha vagarosamente da morte.

Já o equinócio de primavera (22 de setembro) é a consolidação do deus-sol, a volta dele para o mundo dos vivos como um garoto jovem e a sua união com a grande deusa que resulta na fertilidade da terra. O equinócio é o momento em que a noite e o dia possuem perfeito equilíbrio, tendo quase exatamente a mesma duração.

No norte da Europa existe uma uma deusa germanica que trazia a primavera e o seu nome era Eostre (Que possivelmente originou a palavra Páscoa em inglês - Easter). Essa deusa ao ouvir as suplicas de um pássaro ferido o transformou em lebre que ainda podia botar ovos e como forma de agradecimento decorou os ovos ofertando a deusa, e dai vem os ovos de pascoa (Lembrando que a primavera no norte do mundo começa no dia 21 de março).

The Return of Persephone by Frederic Leighton, 1891. Depicts Hermes bringing Persephone back to her mother:
O retorno de Persefone.
Frederich Leighton, 1891
Já na Grécia a crença da primavera estava voltada ao mito de Kore e sua mãe Demeter. Na lenda, Kore é raptada por Hades, e Demeter sem saber o que aconteceu com sua filha decidiu que a terra deveria passar fome até que ela retornasse. Pelo trato feito, Kore volta do mundo dos mortos no dia 21 de março não mais como a donzela, mas sim como Mulher e Rainha do Inferno, como Persefone.

Pelos mitos podemos ver os símbolos que permeiam a primavera, tendo o primeiro (de Eostre) o símbolo do Coelho como reprodutor e o Ovo como símbolo do renascimento. Já no mito de Kore vemos a primavera como uma transformação tanto de sua mãe que abandona o seu período de luto pela filha sequestrada, quanto na filha que decide não mais ser Kore, não mais ser vitima do destino, renascendo como rainha do mundo de baixo.

Primavera é um momento para equilibrar sua vida e deixar florescer o que você tem dentro de si. Prepare sua casa para a primavera, prepare seu corpo para a primavera, prepare seu espirito para a primavera. 

Não perca nosso próximo texto que sai semana que vem! Grande abraço :)

(*) Poema de William Blake: O Tigre

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 1989.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Agir Editora, 2014.

CABOT, Laurie. O poder da bruxa. 1991.

CUSACK, Carole. The goddess Eostre: Bede's text and contemporary Pagan tradition (s). The Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, v. 9, n. 1, p. 22, 2007.


FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo; DA GRAÇA PINHÃO, Maria. História da alimentação. 1998.



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HEUSTAM (Lucas Oliveira) Nutricionista e pagão, Heustam acredita que a ordem gera o caos, e por consequência o caos gera a ordem. Ama o fogo e como ele, gosta de consumir tudo ate o fim. Gosta de coisas tribais, dança, movimento corporal. 

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